♥ O lampião... ♥

Foto de Gunnar Hustad

Sob a luz de um lindo e antigo lampião a conversa se estendia por horas e horas..

Ali havia um banco e Nice namorava , pensando não ser vista, longe dos olhares de sua família.

Bertoldo a acariciava no rosto, no queixo, beijos eram trocados entre risadas e conversas que não tinham fim.

Assunto aos dois não faltava.

Aquele namoro passou à noivado e depois à casamento.

Não foram agraciados com os  filhos pelos quais tanto sonhavam.

O relacionamento entre os dois pouco a pouco, com o passar do tempo, foi perdendo a cor, desbotando. Era sempre tudo igual.

Ambos pareciam nem mais se encostar, apesar de dormirem juntos na mesma cama. Quem os visse, podia perceber aquela frieza.

Porém, de tão acomodados, nem percebiam que aquilo com eles estava acontecendo...

Moravam na casa que fora dos pais de Nice e o lampião lá continuava, várias lâmpadas foram nele  trocadas, mas ele  velhinho, cúpula opaca , sem brilho...

Até isso era mesmice...NADA mudava...

Certo dia, Nice pareceu acordar diferente. Algo dentro dela a angustiava. Sentia uma gana, algo lhe pedia mudanças...

Abre as janelas da casa e vê o banco rodeado de gatos e cacos...
O lampião havia sido quebrado: a cúpula e a lâmpada...

Ela volta, vai acordar  o marido para contar e ele não lhe responde... Estava, como o lampião , morto.
Acabara-se a luz de fora e de dentro...

Triste,Nice nem sabia por onde começar...

Aconteceu o velório, enterro, ela volta, sentindo-se morta por dentro  e solitária para casa...
Sentia medo, tudo ali era silêncio, escuridão...

Passam-se alguns meses,ela já mais conformada, abre a janela pela manhã...
Vestiu as roupas negras ,ainda do luto que respeitava...

Olha para fora, vê o lampião lá, colocado. Uma alegria estranha lhe invade o coração.

Naquela tardinha o  céu estava lindo, os dias encompridavam-se para a mudança de estação...
Ela  olhou-se no espelho, sentiu uma tristeza enorme em seu rosto...

Olhou.Pensou. Pensou mais e foi ao armário...

Pega uma roupa colorida, linda, cheia de flores que Bertoldo lhe dera. Tudo estava folgado...Emagrecera muito, pois nem vontade tinha de preparar nada ,quanto mais, de comer...

Olhou-se agora. Sentiu-se linda!

A mudança do luto às flores, lhe caira bem!  

Foi lá para fora, sentou-se no banco...

Sente que está em companhia...Gatos , cachorrinhos da vizinhança se aproximam fazendo e pedindo carinho...

Ela ali, repensa sua vida.  Chega a conversar, em pensamento, com seu marido. Fala da falta que dele sente e conta de sua vida...

Para ela, estar ali, era como se tivesse acesa uma nova luz...

O tempo foi  passando e ela sempre , durante o dia, esperando o anoitecer, uma hora mágica para ela, para lá voltar...
O lampião brilhava mais , lhe parecia, naquele dia...

Chega no banco...Uma rosa e um cartão ...

Curiosa lê, mesmo não imginando que era para ela.

"Para uma triste, mas linda flor, meu carinho...
Seu admirador, Felício"

Ela pega a rosa, cheira e recoloca no lugar...

Fica ali, absorta em pensamentos quando uma voz lhe pergunta:

_Gostaste da flor? Pensei em poder ver a única coisa que falta em ti para mais bela ainda seres...Um sorriso!

 Ela corada, agradece  e, entra em casa levando a flor.

 No dia seguinte, viu um sorriso maroto, lindo, instalar-se em seus lábios, só em pensar naquele banco e lampião e, claro, na expectativa de novo encontro...

Assim, o romance evoluiu...Nada de compromissos, mas aquele homem, naquele banco deixava sua vida mais feliz.

Uma coisa porém, ela gora sabia:  nunca mais deixaria morrer a  chama do lampião, muito menos a de dentro do seu coração...

Após algum tempo, estavam juntos e, naquele banco, nunca mais faltou aquele casal...

Era seu cantinho e o preservavam para nele se refugiar das rotinas...

Ali estavam sempre a namorar.  E ela, tinha certeza, que Bertoldo , de onde estivesse, aquilo estava a aprovar...