♥ Uma cadeira e as lembranças... ♥


Ali, naquela rua de uma praia pequena, todos dias Maria Esperança Dias iniciava sua rotina.

Trabalhava duro na casa de veranistas que  precisavam de seus serviços para melhor curtir as férias.  Lavava, limpava e cozinhava. Sorria, brincava,  se divertia.

Ao retornar para casa, sua rotina lá a esperava.

O marido Pedro, outrora pescador, hoje nada mais fazia. Vivia de biscates.Ora arrumava um telhado, ora um portão. Nada fixo. Não gostava de compromissos. Esses, só para Maria Esperança Dias...

Não tinham filhos e Maria se ressentia desse fato. Sentia falta de companhia, já que o marido, passava seus dias em uma cadeira, no avarandado a fumar, olhar e cochilar, esperando a hora de Maria em casa chegar.

Nessa hora, ele dali mesmo, apenas mandava , aos gritos. Queria ser servido. Sentia-se o dono dela, o senhor a ser obedecido.

Burramente ela assim fazia.

Naquele verão, ela trabalhou na casa de D.Beatriz ,uma senhora da Capital,como ela mesma dizia  e essa, gostou muito de seu modo de trabalhar e de ser.  Ficaram amigas e Maria contava sobre sua vida.  A patroa , bem mais velha, amiga lhe abria os olhos.

_Muda,Maria!

Ninguém precisa viver assim. Ninguém é DONO de ninguém.  Se não estás feliz, muda. Muda de vida, de casa, de marido. Segue tua vida. Tens apenas trinta e quatro anos e tens direito a ser feliz.

Maria ouvia e sorria...Passam os dias, semanas...

De repente, percebeu diferente o olhar de Zico, como chamava o filho da patroa. Começou a sorrir mais, falar mais, estar mais com ele, o que não fazia antes.  Agora, quase sem perceber, sentia algo mudado. Sentia-se viva!

Dali para um namoro, foi apenas um passo.

Porém era guardado em segredo por eles.

Maria agora chegava atrasada em casa, pois após o trabalho encontrava Zico.
Estava feliz. Suportava muito melhor até  as chatices do marido.

Porém, após um tempo,.D.Beatriz  descobriu tudo.  Chamou o filho, que não teve opção a não ser confessar.

A partir daquele momento, as coisas mudaram . Maria foi despedida, D.Beatriz voltou à cidade  tão logo pode.  Naquela casa não foi admitido o amor do filho e de uma doméstica!

D. Beatriz a sabia aconselhar, porém não aceitava fosse o seu filho  a operar as mudanças na vida de Maria.


Meses após, Pedro, o marido faleceu em consequência da bebida.

 Maria voltou à rotina de apenas trabalhos e nada mais.

Com tristeza, enfrentou mais aquele inverno, mas ela sabia que pouco tempo depois, novamente o período das férias recomeçaria e a praia novamente se encheria de turistas . E ela, sempre que podia, sentava na varanda, na mesma cadeira, porém esperava um turista especial.

Esse não veio, nem naquele verão, nem nos outros seguintes...

Hoje, quem passa pela casa, não vê mais cadeira, nem janelas abertas.Muito menos,Maria!

Essa, fazendo jus ao seu nome, juntou seus trapinhos, trocados e foi embora para a cidade.  Tinha a esperança de melhorar de vida, arrumar trabalho e refazer sua vida.

Encontrou emprego como merendeira  numa escola e   à noite, passou a frequentar aulas...

De merendeira passou a trabalhar na  biblioteca da escola...

Estava feliz em todos os sentidos. Estava apaixonada e  já esperava seu primeiro filho, numa gravidez tardia, cheia de cuidados, pois já estava perto dos quarenta anos.

Mas agora, tinha a ajuda de sua sogra que feliz preparava o enxoval do bebê, primeiro neto.

Por vezes, se recordava ainda daquela casa, da praia, da cadeira que lhe marcou...

Mas, em sua vida, nunca mais cadeiras no mesmo lugar, nunca mais marasmo...

Era feliz, tinha apenas motivos a agradecer.


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* Passeando pela praia, vi e revi vários dias esse cenário da foto.Sempre ali, a mesma cadeira!Ali me inspirei!