♥O amor e o jardim... ♥




Edição Conto/Histórias do Bloinquês

Tema: "Mas, querida, se tu fores me abraçar, aquele derradeiro abraço, faça-o lentamente para que eu tenha tempo de enxugar as minhas lágrimas antes que vejas os meus olhos."

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A vida , em sua rotina louca, estava corrida para Mirtes e José. Pela manhã, cada um saia de casa com um carro, para lados opostos da cidade, rumo aos seus trabalhos.

Trânsito , buzinas, tranqueiras tudo isso os esperava, apenas colocavam os pés para fora da porta.

E, dentro da sua casa, as coisas não andavam muito bem.

Havia se instalado um silêncio forte.  Palavras sem respostas, olhares sem retornos.

Passavam um pelo outro sem , pelo menos, roçar seus corpos. Eram encontros no corredor e à mesa, onde engoliam alimentos,em silêncio.  Ele, grudado no seu telefone,aproveitava as refeições para responder emails, mandar mensagens.

Ela, triste, o olhava e pensava , onde fora parar todo o amor que os unira um dia.

O tempo passou e as coisas entre eles, só pioraram. Porém Mirtes estava decidida, dentro de si. Não ficaria mais num relacionamento assim. Não precisava daquilo, pensava.

Assim, organizou sua vida, tomou coragem e falou ao marido de sua decisão de dele se separar e morar sozinha e, para isso, aceitara a promoção para trabalhar em outra cidade, longe dali.

_ Mas como,Mirtes? O que deu em tua cabeça? Disse José, espantado.

O que será feito de mim, como farei sozinho aqui? Sabes que te adoro!

_ Me adoras? Realmente, não é isso que deixas ver e, sobretudo, pensar...

Assim,continuaram a discutir ... Mas Mirtes estava completamente segura de sua decisão.

_ Não vou repensar e, tenho certeza, não me arrependerei.  Dei tempo ao nosso amor, mas não o soubeste bem tratar.

Agora, não tenho mais tempo, José.  Dentro de uma semana, saio de casa , rumo à Teresópolis, onde assumo a gerência do novo  hotel da rede  em que trabalho há anos.

Aqueles últimos dias passaram depressa e ele mostrava-se triste, tentava aproximar-se. Mas ela, irredutível...

Na última noite ele perguntou:

_Então, estás segura do passo que vais dar? Será bom para tua carreira?

_ Tenho certeza que sim! Porém , nunca teria aceitado sair daqui se entre nós as coisas não estivessem nesse ponto.

_Mas querida! Não me compreendes. Te amo, apenas esqueci como demonstrar isso! A rotina nos fez mal.

_Pois, por isso mesmo, minha rotina será diferente...Amanhã cedinho viajo.

Ele triste , mas conformado,pede:

- Mas, querida, se tu fores me abraçar, aquele derradeiro abraço, faça-o lentamente para que eu tenha tempo de enxugar as minhas lágrimas antes que vejas os meus olhos.

Ela  fica um tanto desconcertada, mexida... mas segue...

Manhã seguinte, cedinho, a despedida...

Ambos choravam, abraçados, até a hora de ouvirem a buzina do táxi, que a levaria ao aeroporto de Guarulhos para chegar até o Rio de Janeiro.

A despedida, triste, chorosa, pesada...
E, com essa sensação ela sai, sem olhar para trás.

Chegando no hotel, a implantação de tantas coisas era uma tarefa complicada, um novo desafio para ela, que ficava completamente envolvida pelo trabalho, sem muito tempo para pensar.

Estava adorando o novo trabalho por lá e a nova cidade. Lá respirava ar puro, à noite, o ar fresquinho convidava a um bom sono...

Passavam os dias, os primeiros meses...

Enquanto isso, no antigo endereço,as coisas corriam  normalmente. José trabalhava, levava a vida, mas triste, muito triste.

Num fim de semana  antes da  primeira audiência  do processo de separação, ela bem envolvida em seu trabalho, quando um funcionário lhe avisa que havia alguém na sala de café a sua espera.

Era José!

Quando se viram, lágimas dos olhos dos dois rolaram. O abraço foi forte, unia os corações. Pareciam não mais se largar. Veio o beijo e esse falou alto...Outro, outro e ela o convidou para ir até o seu apartamento no hotel.

Lá, após a alegria, abraços, beijos, rolou o amor de antes, aquele lá dos primeiros tempos.  Foi lindo para os dois.

Ambos sabiam agora que teriam muito a conversar até que voltassem a viver juntos, mas estavam certos de que era isso que queriam e, como primeiro passo, sabiam que na audiência, aceitariam a conciliação.

Mirtes continuou no seu trabalho em Teresópolis, ele em S.Paulo.

A ponte aérea funcionava entre eles. Agora, sempre que podiam, estavam juntos, a rotina não mais se instalou...
E não haveria de se instalar , já que  Mirtes, naquele fim de semana, lhe mostraria um envelope,onde se lia :POSITIVO...

Mirtes , continuou naquele trabalho por mais dois meses até deixar tudo bem operante e então, pediu para voltar à Sampa .

Iriam viver um amor renovado. Valia o recomeço!
Tinham aprendido que precisavam cultivar.

Estavam felizes e agora, iniciaria além de tudo, a doce espera...
Certamente, nunca mais a rotina seria a mesma...

E agora, num lugar de destaque em sua casa, um quadrinho feito pela sua avó que dizia:

" Cultive a plantinha do amor! Seu jardim será lindo sempre!"

Ela lia e sabia que aquilo valia para os dois! Era assim mesmo que fariam!

Dentro deles, as coisas haviam mudado! Se dependesse das suas  vontades , daria certo!