♥ Uma tela... ♥


Daqui

Bete  vivia solitária numa grande mansão, cercada de luxo e empregados.
Havia sido herança de seus  avós, por quem fora criada, já que os pais haviam cedo falecido.

Tinha tudo que desejava, bastava um pedido, tudo se resolvia ou aparecia diante de seus olhos.

Ela não trabalhara pois seus avós não permitiam, diziam não precisar estar na rua, aguentando outros humores.

Quase não tinha amigos, pois após a universidade, perdera o contato com todos.Era uma pobre menina rica.

Assim, bordava, lia, pintava...Ah! Como gostava de pintar...

Certo dia, enquanto isso fazia, após algumas pinceladas, sente-se cansada. Parecia nada sair naquele dia na tela. Não conseguia ver expressão no que fazia.

Foi deitar um pouco. Sonhou...

Estava então no sonho, sentada numa cadeira diante da janela ,cortinas esvoaçantes, rendadas, detalhes dourados para dar um toque de classe...E essa cortina, um pouco levantada, deixava ver o verde do jardim, um grande jardim que cercava sua casa.


Quando, de repente, por aquele pedacinho de visão lá de fora, avista um rapaz que lhe chamava e   pedia que a esperasse . Um dia ele chegaria para a tirar da prisão.

Acorda, então, com uma estranha sensação...
Sente-se  meio tonta até.

Pega os pincéis, retoma seu trabalho. Pinceladas daqui, dali e enfim, consegue colocar expressão no rosto que pintava.

Para sua surpresa, após algumas horinhas na tela,em meio às tintas, surge o rosto daquele homem do sonho...
Ela quase não acreditava no que via..

O tempo continuava a passar lentamente para ela ali dentro. Mas algo tinha mudado dentro dela. Cada vez que passava pela tela pronta, piscava o olho, como fazia enquanto adolescente.

Não mais se sentia sozinha...E o tempo passava para ela também...

Ficava agora, horas e horas, sentada em sua cadeira de rodas, colocada pela enfermeira, diante da janela...
E esperava, esperava sempre a chegada daquele que a tiraria dali para sempre...

Isso até o que parecia ser, o último dia de sua vida, quando ao sentir-se muito mal, ouve ao longe a sirene de uma ambulância e ainda a tempo de ver entrar um médico, que a carregou na maca, tirando-a dali.

Pela frestinha aberta de seus olhos, vê o homem do quadro... Mas ali,à sua frente...

Ele havia cumprido  promessa... Mas agora, num último instante de lucidez, passa um filme de sua vida, vendo o tempo perdido de ser feliz...Nada mais adiantava...

É encaminhada ao hospital, fica na UTI, entra em pré  coma e eis que acorda, sonolenta, pouco a pouco...

E, também, pouco a pouco, retoma a consciência...

Ainda que devagar, ela lembra de dar uma piscadela ao médico e este, vibra. Vê naquilo um sinal de vida maravilhoso.

Ela se recupera bem ,sempre auxiliada e atendida pela enfermagem e o Dr. Leocádio, de quem já estava muito amiga. Havia nascido algo impressionante entre os dois.

_Amanhã terás alta, ele lhe comunica alegremente.

_Não, não! Não quero voltar para a velha casa. E, corajosamente, lhe diz o motivo.

Ele surpreende-se, mas percebe que nunca lhe passara pela cabeça, ficar longe de Bete. Os dois haveriam de juntos ficar...

Ela apenas fez questão de ao  colocarem seus pertences na casa do médico, que trouxessem o quadro que pintara.  Ele quase não acreditou..

_Mas esse sou eu!

_Coisas que não se explicam, responde.

E quem precisa explicar? - diz Leocádio. Vamos viver ,simplesmente!!!

E assim fizeram...

Viviam bem longe da mansão, por onde passa agora carregada na cadeira de rodas pelo amor  de sua vida, que chegou tarde, mas veio...