✿Todo o dia, todo o dia, todo o dia!✿



88ª edição conto/história do Bloinquês

Tema: Todos as noites ele(a) tinha essa atitude.


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Pedro tinha com Josefa uma penca de filhos.
Eram sete boquinhas para sustentar...

Josefa só fazia ter filhos e deles cuidar.Estava sempre "embarrigada" e incrivelmente azeda.

Pedro, ao contrário, despertava às 05.00hs todos os dias, inverno ou verão ...

Ia ao banheiro, lavava-se com a pouca água que corria daqueles canos velhos e enferrujados, tomava um copo de leite frio, uma fatia de pão e lá se ia. Benzia a esposa e cada um dos sete filhos.

Entrava no trem, a que chamavam "transporte público", porém mais  parecia um modo de carregar gado. Iam ali todos os passageiros amassados.

Chegava no seu ponto. Descia, caminhava nove quadras e finalmente estava no seu emprego,  numa fábrica de pregos.

Ali testava um por um...Trabalho enfadonho e sem graça.
Apenas de vez em quando, encontrava um torto e sem condições de ser encaixotado.

Enquanto aquilo fazia, pensava na sua família e era apenas por ela que ainda estava ali.

Sonhava com o dia de sua aposentadoria.
À noite, antes de deitar ia de quarto em quarto, dava a benção para cada um, rezava, pedia para o Alto que todos os seus filhos ficassem bem sempre e depois, dormia abraçado à esposa.
Todas as noites ele tinha essa atitude.

O tempo passava, Pedro na sua rotina seguia.

Suas mãos, já trêmulas continuavam a bater o ponto, dia a dia...E bater pregos...

Os filhos ora já crescidos o viam naquela mesmice de vida.
- Pai, tu não sabes fazer nada! Nada sabes da vida. És bitolado como os pregos que fazes e inspecionas por lá!

Alguns  já trabalhavam e ajudavam um pouco em casa.

Um dia, Pedro saiu radiante. Iria buscar sua aposentadoria...

Papelada toda pronta, tudo entregue.Bastava esperar o dia de receber e então festejar...

Claro que com os filhos e Josefa,que a essa altura da vida, estava completamente despencada, mal conseguia caminhar.Cheia das dores!

Porém, o dia esperado  não chegou...
Pedro foi acometido de uma grave doença e morreu.

Da fábrica, no enterro,lhe foi depositada  uma coroa de alumínio , com flores de pétalas tortas, das mais simples possíveis,feia, horrorosa até, com cheiro de morte. 

Mas o pior cheiro era o da falta de reconhecimento...

Nunca haviam  pensado nele como gente.Nem os donos da fábrica, nem muito menos sua família...

Agora, sentiriam falta, muita falta daquele que como diziam, fazia tudo sempre igual, fazia da vida uma mesma rotina.... 

E , só agora, sabiam que fez e fazia tudo isso apenas por eles...


* Imagem daqui